The sound from the forgotten fields

ENTREVISTA

Entrevista publicada em abril de 2008

O Folk Black Metal é um estilo que vem crescendo muito ao redor do globo e, como não poderia deixar de ser, o Brasil também possui seus bons nomes. O Austhral é um conjunto de Florianópolis (SC) com pouco tempo de estrada, mas que vem batalhando seu espaço e buscando sua própria identidade ao mesclar o Black Metal às sonoridades típicas da região sul de nosso país.

A estréia com “Tocado a Vento”, que está saindo pelo selo Face The Abyss Records, é o primeiro passo onde Leonardo Chagas (voz e baixo), Cristian Derosa (guitarra), Salles de Moraes (teclados) e Marlon Derosa (bateria) mostram o potencial de sua proposta. O Whiplash! procurou o grupo para saber mais detalhes e conversou com os irmãos Derosa, no bate-papo que o leitor lerá a seguir:

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Whiplash!: Olá pessoal! O Austhral está começando a despontar no underground da região sul, mas provavelmente o resto do Brasil ainda não o conhece. Como começou a história da banda?

Cristian: Nós começamos em 2004 a partir de duas músicas que havíamos composto: “Sacred” e “Ruinland”, que estão presentes em nosso primeiro CD. Foi assim que nos empolgamos para fazer um repertório maior e chamamos pessoas para tocar. Compomos “Foresta Dell’Ombra” quando já tínhamos o primeiro baixista (Bruno Peroti), quando a banda ainda se chamava Sepher e em seguida começamos a aumentar o repertório enquanto iam sendo feitas mudanças de formação. Depois, quando a banda adquiriu a formação atual, praticamente, começamos a fazer shows por todo o Estado, incluindo dois shows em Curitiba.

Whiplash!: Como surgiram as primeiras idéias para o uso de sonoridades típicas da região sul do Brasil?

Cristian:  Sempre brincamos em misturar metal e música tradicionalista, mas jamais havíamos tocado música gaúcha ou coisa parecida antes, somente a conhecíamos de ouvir, pois somos gaúchos. Mas quando conhecemos as bandas de Black Folk nórdicas e a adoração que provocavam aqui no Sul do Brasil, percebemos o quanto isso era surreal. Afinal, nossa música também é rica. Não somos vikings, mas temos uma história de guerras e não fazia sentido ficar adorando a cultura dos outros, pois isso não tinha a ver com o movimento artístico dos nórdicos, já que é uma coisa nacionalista extrema. Não fazia sentido eles se acharem superiores a nós por aquela cultura toda e nós concordarmos com isso. Então houve um período em que começamos a ouvir estes estilos e, digamos, retornar às nossas origens. Passamos a ouvir música gaúcha, tango, valsa, flamenco e música clássica latina. Tocamos com gente que conhecia esse estilo e estudamos as escalas e a estética desses gêneros. Gostamos desse primeiro resultado, mas não acreditamos que é definitivo e que esteja pronto, não encontramos a mistura certa e pretendemos continuar experimentando até achar o tom. O objetivo sempre foi incentivar a criação de iniciativas que valorizassem as culturas regionais através da música e com isso, difundir pelo mundo a cultura do sulista brasileiro. Estamos na contra-mão da globalização (ou o que chamo de globalismo) que une os povos tentando criar uma cultura universal. Isso é uma coisa artificial e autoritária. É claro que muitas vezes isso nos ajuda a divulgar nosso trabalho pelo mundo, mas a intenção é regionalista. Nossa bandeira é pelo valor da cultura regional e das tradições de cada povo.

Whiplash!: Parte do público que escutou suas canções traçam algumas comparações com o Finntroll ou Thyrfing, enfim, bandas nórdicas. A confusão é até compreensível, mas que tal explicar as diferenças ao pessoal?

Cristian: O metal nórdico atual utiliza uma estética ancestral, da cultura viking. Nós usamos a nossa tradição, vinda de um passado recente e ainda presente em nossa região. É completamente diferente. Eles fazem uma coisa artificial e forçam a barra ao se sentirem verdadeiros vikings. Nós estamos sendo realistas quando incorporamos a tradição que ainda existe em nossas famílias e acreditamos ser isso mais natural. Os noruegueses (pelo menos os normais e sadios) não andam mais pelas ruas a cavalo com espadas e armaduras, mas o gaúcho ainda anda de bombacha e a cavalo, como no tempo em que foi o guerreiro dos pampas. Estamos falando da diferença entre o ancestral e o tradicional. Na prática a coisa é bem mais simples. O Finntroll, por exemplo, utiliza elementos como a polca e o schottish (antecessor do nosso xote) e isso não tem nada a ver com vikings. É uma mistura de ancestral com música latina, pois os romanos dominaram a Europa por muito tempo, por isso às vezes os estilos se parecem, mas é por que têm a mesma raiz e influencias semelhantes. Quando eles querem remeter aos ancestrais, usam música épica ou clássica, ou então músicas típicas que muitas vezes são de épocas mais recentes. Enfim, os vikings foram extintos há séculos, subsistindo somente algumas superstições que ficaram. Se fossemos fazer o mesmo que eles, teríamos que nos misturar aos índios, mas eles não possuem música tradicional, ou pelo menos, é muito difícil de saber o que não foi criado por brancos que colonizaram. Nós somos os colonizadores e não os colonizados. Usamos a nossa cultura e não a ancestral, pois não temos contato com ela e por isso acreditamos ser mais natural. O movimento dos nórdicos está bem mais ligado a uma vontade de contrariar a cultura vigente do que um movimento autêntico de retorno às tradições.

Whiplash!: Cristian, como funciona o processo de composição em toda esta mistura de sonoridades?

Cristian:  É uma coisa muito intuitiva. Geralmente começa com um riff que tenha alguma dose do som que queremos fazer, isto é, do estilo sulista e juntamos com outras idéias que o torne mais claro ou ainda mais “tradicionalista”. O ritmo é algo que nos ajuda muito a nos encontrarmos com a música latina e com os climas que queremos dar ao som. A maioria das músicas é uma fusão do que cada um aprendeu sobre os estilos que pretendemos tocar, sejam eles o metal, a valsa, o xote ou o tango. Mas isso tem mudado muito. Ultimamente temos feito improvisos muito longos e no meio deles surgem idéias muito boas, o que acreditamos que também seja uma forma de chegar ao tom ideal. Acho que estamos conseguindo criar uma maneira de tocar e de criar que nos aproxima do objetivo inicial da banda. Esperamos que continue assim.

Whiplash!: “Tocado a Vento” é um título bastante curioso, e se encaixou perfeitamente na proposta do álbum. Ele possui algum significado especial?

Cristian: Este é um título com vários significados. Ele pode dizer que somos ‘tocados pelo vento’ ou que nosso som é tocado a vento. Durante o século XVIII, o sul do Brasil era uma imensa fronteira, um campo infinito. Devido à incerteza do domínio espanhol ou português, os habitantes viviam como nômades, fazendo fronteira a cada passo, pois não havia como saber a que país pertencia aquela terra. A fronteira, dessa forma, também foi tocada pelo vento, pois o vento era só o que havia nos campos ermos e desertos do pampa. Os nômades, que são os gaúchos primitivos, andavam conforme o vento levava, acampando de um lugar ao outro como que tocado a vento. Então o significado deste título está na essência do sul. Uma das únicas coisas que não muda nessa região é o vento.

Whiplash!: “Tocado a Vento” é conceitual. Qual o tema abordado?

Cristian: Sim. Contamos uma história fictícia, mas baseada em um contexto histórico que foi a Guerra dos Farrapos. Esse conflito foi um marco para a cultura do Sul e decidimos homenageá-lo em nosso primeiro trabalho. Contamos a história de um capitão sem nome e sem memória que vaga pelos campos, durante a guerra, em busca de sua história e seu passado. É exatamente o que estamos fazendo ao resgatar a história e contá-la por meio da música, ou seja, com outro olhar. Então o capitão passa a enxergar a sua terra com outros olhos e descobre que, na verdade, já havia morrido na guerra há algum tempo. Ele descobre que é apenas uma alma que vaga nos campos, tocada a vento. As músicas ilustram momentos diferentes e lugares por que passou.

Whiplash!: A canção “Foresta Dell’Ombra” e “September” são excelentes e exemplificam muito da proposta do Austhral. Que outras faixas tem se mostrado especiais ao público?

Cristian: Esses são dois exemplos de influências da música italiana mais propriamente. Realmente “Foresta Dell’Ombra” é uma música que muita gente gosta e isso nos deixa muito feliz ao tocá-la nos shows, pois é realmente um momento especial que aparentemente muita gente espera. “September” é uma música que compomos no estúdio e nunca tocamos ela ao vivo. Mas desde o início mostrou-se uma música forte. Acreditamos que ela é uma das mais fortes do CD. Por causa do clipe na internet, “Secret Cave” sempre é reconhecida nos shows e o pessoal gosta muito. Temos também a “The River’s Farm” que traz muita empolgação ao vivo. Curiosamente essas são as músicas que mais utilizamos elementos tradicionalistas com ritmos como tarantella, tango e flamenco, valsa, provando que a mistura pode agradar ainda mais.

Whiplash!: O álbum foi produzido pela própria banda. O que vocês acharam do resultado final?

Marlon: Produzimos o CD praticamente sozinhos. Contamos com a masterização do Xei Leão e achamos um ótimo trabalho. Chegamos a gravar algumas vezes antes e tivemos alguns problemas. Quando o Juliano (Regis, ex-vocalista) saiu da banda estávamos no meio da gravação, mas conseguimos concluir no estúdio do Chagas (baixista) que assumiu os vocais no lugar do Juliano, o que ajudou muito a dar continuidade ao trabalho e concluir com êxito o CD. Achamos que a qualidade ficou padrão internacional, o que nos ajuda a divulgar melhor pelo mundo essa nova proposta. Mas mentiria se dissesse que estamos plenamente satisfeitos. Nunca estamos satisfeitos e isso é o que nos faz lutar sempre para melhorar. Do contrário não precisaríamos continuar tocando.

Whiplash!: Sua apresentação no “Show No Mercy” arrancou algumas situações inusitadas… Apesar do cansaço generalizado (a banda tocou pelas 4 da manhã!), vários casais de headbangers arriscaram alguns passos e saíram dançando na frente do palco. Foi muito legal! Isso é normal em seus shows?

Cristian: Algumas vezes isso aconteceu, mas de forma mais tímida. Muitas bandas sentem-se ofendidas quando isso acontece e, na maioria das vezes, acho que é essa a intenção do público ao fazer isso. Mas no nosso caso este é o melhor sinal de que nosso som alcançou seu objetivo e nós gostamos muito quando isso acontece, desde que se estejam dançando no ritmo (risos).

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Whiplash!: Eheh! É, acho que os casais estavam no ritmo sim… O Brasil é gigantesco e, assim, a nossa cultura é bastante diversificada. Vocês acham que haverá espaço para músicas tradicionais de outras regiões do país em algum futuro disco do Austhral?

Marlon: Nossa primeira idéia foi homenagear a cultura do Sul do Brasil e desde o princípio sabíamos que nossa gama de influências deveria ser grande, dada a diversidade de ritmos do Sul. No resto do país sabemos que já houve tentativas e algumas delas até bem sucedidas, outras não. Já fizemos algumas brincadeiras com bossa nova e marchas militares do século passado e, contanto que tenhamos um bom episódio histórico para contar, faremos sim algo mais elaborado com esse objetivo. É claro que isso necessitaria conhecer melhor a música de outros lugares. E como eu disse, há coisas que já foram experimentadas como a música do Nordeste, por exemplo. A mistura que fazemos, adaptada a esses ritmos, já foi de certa forma experimentada por nossos artistas em outros lugares. Bandas como Sepultura e Nação Zumbi usaram e abusaram de instrumentos e escalas nordestinas e nortistas. Gostamos muito de algumas coisas que eles fizeram, mas nossa proposta é apostar em algo que ainda não foi feito e achamos que essa deve ser a grande contribuição de quem quer fazer música ou qualquer tipo de arte. Mas nada está fora de questão quando se fala em música, criatividade e bom gosto, afinal, é isso o que buscamos.

Whiplash: Pessoal, o Whiplash! agradece pela entrevista. O espaço é de vocês para as considerações finais.

Cristian: Agradecemos a oportunidade e principalmente a confiança dos que estão dando apoio neste lançamento que está sendo ouvido e comentado. Nosso intuito é tocar a música do Sul, seja ele o Sul do Brasil, das Américas ou do mundo, e levar para todos os lugares que pudermos. Valeu!

Fonte: Austhral: valorizando as culturas regionais http://whiplash.net/materias/entrevistas/070881-austhral.html#ixzz2OiUYSMfx

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